Taxonomia – Parte I

COMO AS ESPÉCIES PODEM SALVAR NOSSAS VIDAS

Por Richard Conniff

Ao falar sobre os benefícios de três séculos de descoberta de espécies, fico tentado a começar, e também a terminar, com Sir Hans Sloane.  Médico e naturalista inglês do século XVIII que coletava tudo, de insetos a presas de elefantes.  E, como muitos outros naturalistas, era ridicularizado por isso, notavelmente por seu amigo Horace Walpole, que zombava do apreço de Sloane por “tubarões com uma orelha, e aranhas tão grandes quanto gansos!”  A coleção de Sloane veio a se tornar o Museu Britânico [The British Museum], a Biblioteca Britânica [The British Library], e o Museu de Historia Natural de Londres [The Natural History Museum].  Não é um mal legado para uma vida, mas isso não é nada comparado ao resultado de uma viagem de coleta à Jamaica, quando Sloane também inventou o chocolate com leite.

Nós ainda zombamos de naturalistas.  Nós ainda tendemos a esquecer de como nos beneficiamos de seu trabalho.  […] deixe-me tornar as coisas mais claras: Se não fosse o trabalho dos naturalistas, você e eu, provavelmente, estaríamos mortos.  E se estivéssemos vivos, seria mais provável que estivéssemos aleijados, com dor, ou incapacitados de alguma outra forma.

Grande parte do que chamamos hoje de conhecimento médico básico vem, originalmente, de naturalistas.  John Hunter, por exemplo, foi um médico de Londres, uma ou duas gerações depois de Sloane, e sua paixão por animais fez dele um modelo de Dr. Dolittle (ou também pode ter sido o Dr. Jakyll e Mr. Hyde, devido ao seu trabalho noturno, mexendo em cadáveres nos fundos de sua casa).  Enquanto outros estavam apenas começando a contemplar a conexão entre humanos e animais, ele fez comparações detalhadas, descobrindo, entre outras coisas, como os ossos cresciam e qual a direção que os nervos olfatórios percorriam.

Hunter, agora reconhecido como o pai da cirurgia moderna, veio de uma tradição escocesa que tratava o estudo da natureza como essencial para o desenvolvimento das habilidades observacionais de um médico, e ele próprio ensinava essa atitude à seus alunos.  Dentre eles estava Edward Jenner, um médico do interior que passou 15 anos estudando cucos (talvez um dos motivos pelo qual ele veio a ser rotulado de curandeiro).  Essa pesquisa, combinada “com a insistência de Hunter sobre a observação minuciosa e apresentação convincente, ajudaram a preparar a mente de Jenner para seu melhor trabalho”, de acordo com o historiador da ciência Lloyd Allan Wells.  Esse trabalho foi o desenvolvimento da primeira vacina do mundo, para varíola.  […] A ideia ousada de Jenner levou, por sua vez, a vacinas contra várias doenças mortais, como febre amarela e pólio.  Assim, ele recebeu o crédito (com um leve aceno para o cuco) por ter salvado mais vidas que qualquer um na história da medicina.

Você deve estar pensando que chocolate com leite, Dr. Dolitte, e cucos tornam a importância das espécies um caso [no mínimo] curioso.  Mas nossa dívida com os naturalistas também toma uma forma mais convencional: Aproximadamente metade dos medicamentos vem diretamente do mundo natural, ou são produzidos sintéticos baseados nas descobertas provenientes da natureza.  A lista inclui aspirina (originalmente, a partir do salgueiro), quase todos os antibióticos (a partir de fungos que se desenvolvem na natureza, não em placas de Petri), e muitos dos mais efetivos tratamentos de câncer.  Lembro-me de uma garota pálida na segunda série morrendo de linfoma ou leucemia; crianças com essas doenças quase sempre morriam.  Hoje em dia elas sobrevivem, graças às drogas desenvolvidas a partir da planta Vinca-de-Madagáscar [também conhecida como vinca-de-gato, Catharanthus roseus].  Muitos pacientes com câncer de pulmão, mama, útero, e outros tipos de câncer também se recuperam agora, porque, em 1962, um botânico chamado Arthur S. Barclay coletou amostras de uma árvore, Teixo, no pacífico, levando ao desenvolvimento do medicamento anticancerígeno Taxol.  Para aqueles que acham que os recursos naturais deveriam permanecer ou cair dependendo do seu valor econômico, o Teixo seria basicamente inútil em 1961.  Mas hoje, segundo os analistas da indústria IMS Health, o Taxol é um produto de $1,7 bilhões/ano.

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A Vinca-de-Madagáscar é uma fonte de medicamentos contra o câncer. Fonte: P. Goltra for the National Tropical Botanical Garden. http://www.ntbg.org

 

Além de nos fornecer novos medicamentos poderosos, as descobertas do mundo natural também abrem nossos olhos para o inesperado funcionamento de nossos corpos.  Um dos efeitos mais óbvios ao ser picado por uma Jararaca, Bothrops jararaca, é que “sua pressão sanguínea cai ao chão, e depois você cai no chão”, afirma o pediatra de Harvard, Aaron Bernstein.  Então, matem todas as Jararacas, certo?  Pelo contrário, diz Bernstein, co-autor do livro “Sustaining Life:  How Human Health Depends on Biodiversity.”, publicado em 2008.  O estudo de uma enzima do veneno dessa espécie de serpente revelou um novo mecanismo para o controle da pressão sanguínea humana.  Inibidores da ECA [enzima conversora da angiotensina], o resultado direto, são agora nosso mais efetivo remédio para hipertensão e insuficiência cardíaca congestiva, e, certamente, salvou mais vidas do que essas serpentes poderiam matar.

 

Uma enzima no veneno da Jararaca, Bothrops jararaca, revelou um novo mecanismo para controlar a pressão arterial humana. Fonte: Daniel Loebmann, 2005.

Uma enzima no veneno da Jararaca, Bothrops jararaca, revelou um novo mecanismo para controlar a pressão arterial humana. Fonte: Daniel Loebmann, 2005.

 

Do mesmo modo, a rampamicina, também conhecida como Sirolimus, retirada de um fungo de solo da Ilha de Pascoa, inibi a resposta do sistema imunológico através de uma via previamente desconhecida para ciência.  Agora é amplamente utilizado no transplante de órgãos e como revestimento dos stents cardíacos.  Por si só, isso pode não fazer alguém sair por aí com um adesivo “I ♥ Fungos”.  Entretanto, considere isso: Um artigo publicado em 2009 na Nature relatou que ratos alimentados com doses de rapamicina experimentou um aumento de 28-38 por cento de vida útil subsequente – e esses ratos estavam com 60 anos de idade para começar [600 dias no paper original, mas seria o equivalente a 60 anos].  E agora, já estamos começando a sentir o amor aos fungos?

Dado o potencial inexplorado do mundo natural, você deve pensar que os governos e companhias farmacêuticas estariam correndo para salvar as espécies e procurando por outros possíveis poderes extraordinários.  Na verdade, afirma James S. Miller, vice presidente de ciência no Jardim Botânico de Nova York, “somente uma pequena percentagem das plantas do mundo foram pesquisadas” e mesmo estas “foram pesquisadas para uma pequena parte das doenças para as quais elas poderiam ser efetivas”.  Em vez disso, compostos farmacologicamente ativos desenvolvidos ao longo de milhões de anos e eficaz no mais duro laboratório do mundo, a natureza, rotineiramente desaparecem a medida que as espécies nas quais eles evoluíram se extinguem.

 

Mapa de mortes provocadas pela malária nos Estados Unidos, 1870. Biblioteca do Congresso, USA.

Mapa de mortes provocadas pela malária nos Estados Unidos, 1870. Biblioteca do Congresso, USA.

 

Ainda existe um motivo pelo qual devemos nossas vidas aos naturalistas.  A ausência de doenças epidêmicas é agora tão completamente dada como certa que chega a ser difícil de imaginar que já vivemos de outra forma*.  Mas a malária uma vez matou rotineiramente pessoas desde o Golfo do México até a região dos Grandes Lagos.  Epidemias de febre amarela caíram como a ira de Deus sobre cidades tão ao norte quanto Boston.  No pior surto da nação, em 1878, um em cada oito moradores de Nova Orleans morriam, e tudo ao sul de Louisville, Kentucky, era “desolação e angústia”.  Tudo isso mudou na milagrosa década de 1890, quando de repente pesquisadores identificaram as causas da febre amarela, da febre tifóide, da peste, da disenteria e, acima de tudo, da malária.  Em cada caso, a solução dependeu de ter o conhecimento preciso – taxonômico e comportamental – das espécies envolvidas, desde os micróbios até os mosquitos.  Como Patrick Manson, o pai da medicina tropical (e um grande naturalista escocês), certa vez colocou, o estudo das origens e causas da doença “é mais um ramo da história natural”.

Vale a pena lembrar tudo isso agora, porque alguns cientistas dizem que estamos à beira de uma nova era de doenças epidêmicas, com HIV, SARS, H1N1, apenas “o anuncio de um sinistro”.  Novas doenças estão surgindo porque a [ocupação humana] está chegando em habitats remotos.  Alguns cientistas também acreditam que o desflorestamento está retirando nosso tampão biológico – a comunidade natural de animais e plantas que diluiriam o efeito de um organismo causador de doença e impediria que ele se espalhasse entre os seres humanos.

É difícil aceitar que você e eu podemos estar vulneráveis.  Esse breve século “livre” de doenças deu-nos a ilusão de que estamos separados da natureza, pairando de alguma forma sobre o mundo em que vivemos.  E por isso, acreditamos que talvez não valha a pena gastar o nosso dinheiro estudando as espécies que nos rodeia (melhor procurar vida no espaço).  E aceitamos a perda de florestas [e outros ambientes], esquecendo que isso pode se transformar na perda de nossas próprias famílias e amigos.  Quando a nova onda de doenças emergentes estiver batendo à nossa porta, podemos nos encontrar fazendo duas perguntas:  Onde estão os naturalistas para nos ajudar a resolver as causas e as curas?  E onde estão as espécies que poderiam estar nos salvando?

Mas pra quê esperar? Por que não fazer essas questões agora?

*Nota: As doenças citadas foram erradicadas dos Estados Unidos, país de origem do escritor.  Algumas, como por exemplo, malária e febre amarela, ainda ocorrem aqui no Brasil.

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Richard Conniff  é o autor de vários livros, o mais recentemente, 

The Species Seekers: Heroes, Fools, and the Mad Pursuit of Life on Earth.” 

Ele bloga no strangebehaviors.com. Twitter: @ RichardConniff.

Esse texto faz parte de uma série sobre como é/foi o trabalho de quem procura espécies no mundo natural

e os demais 7 posts podem ser lidos aqui no The New York Times [isso mesmo, em inglês!]

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3 Comentários

  1. Eu não gosto muito dessas tentativas de justificar a taxonomia ou a exploração biológica com base nos possíveis benefícios as espécies podem trazer pra humanidade… Eles são inegáveis, como esses que vc citou no texto, mas é uma ínfima minoria das espécies que vai trazer esse tipo de benefício… 99% das espécies já descobertas ou ainda não descobertas com certeza não vai impactar em nada a vida da maioria das pessoas do mundo! Que diferença faz pra uma pessoa média se a espécie xis de passarinho vai ser dividida em três, ou se ela se separou da outra espécie há 1,4 milhões de anos? Enfim, onde eu quero chegar é que pra mim o que realmente é o motor que leva a maioria dos naturalistas (inclusive os atuais – nós) e cientistas a fazer o que fazem é simplesmente a vontade de satisfazer a infindável curiosidade humana! E isso que levou toda a ciência a chegar onde está… Essa história sobre os benefícios pra humanidade e tals pode ser legal pra justificar para o público leigo, mas não corresponde à principal motivação dos taxonomistas de verdade… É o que eu acho!

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    • Graaaande Marcondes,

      concordo em grande parte do que você diz! Primeiramente, acredito que nossa motivação [como naturalistas, taxônomos, enfim pesquisadores] seja a curiosidade [ou o ego disfarçado?]. Também acho que os benefícios citados nesse texto foram [e ainda serão] provenientes de uma ínfima parte de todas as espécies existentes. E, finalmente, com certeza “se a espécie xis de passarinho vai ser dividida em três, ou se ela se separou da outra espécie há 1,4 milhões de anos” não vai fazer diferença alguma na vida e no dia-a-dia das pessoas. Entretanto, deixe que lhe apresente um outro angulo. Esse texto não está tratando dos motivos pelos quais nos levam [eu, você e nossos amigos de museu] a sair em busca de espécies novas, mas sim, como você mesmo notou, trata-se de demonstrar a importância desse tipo de trabalho [seja ele motivado por curiosidade ou outra coisa]. “[…] 99% das espécies já descobertas ou ainda não descobertas com certeza não vai impactar em nada a vida da maioria das pessoas do mundo!” será mesmo? Os benefícios citados nesse texto envolvem apenas um item dos “serviços ecológicos”. Não pretendo discorrer aqui sobre [talvez outro post], mas uma lista de outros benefícios pode ser encontrados no primeiro capítulo do livro Practical Conservation Biology, David Lindenmayer and Mark Burgman; sem mencionar que as espécies não estão sozinhas [e um exemplo disso foi postado recentemente aqui nesse blog]. E, por fim, não são as pessoas [pelo menos, não diretamente] que tomam as decisões do que preservar, muito menos somos nós!!! E esses dados de um passarinho xis que virou 3 à cerca de 1,4 milhões de anos servem apenas para nós mesmos [saciar nossa curiosidade] e para dizer, explicar e justificar aos tomadores de decisão qual a melhor política a ser seguida.
      Marcondes, obrigado pelo posicionamento! Isso abre espaço para maiores esclarecimentos, mais duvidas e mais diálogo!
      Abraços

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  2. “A Chacona – uma peça musical de Bach para violino solo – é aclamada por muitos críticos de música clássica como uma das composições mais perfeitas já escritas. Ela suscita diferentes sensações através de uma combinação única de notas acordes, que pode ser caracterizada como intensa, pura e profunda. Mesmo assim, admitidamente, a humanidade pode viver sem a Chacona. Afinal a grande maioria dos leitores deste livro provavelmente sequer tinha conhecimento da existência dessa peça musical, composta em 1720. De forma semelhante, cada espécie viva é uma combinação única de genes, produto de vários milhões de anos de evolução natural. Ou, como enfatizam alguns biólogos, uma solução única para o problema de continuar existindo na Terra. Sob esta óptica, tanto a preservação de obras-primas quanto a de espécies ameaçadas é justificável, como manifestações únicas e preciosas que são, respectivamente da genialidade intelectual humana e dos processos de evolução biológica. Podemos dizer que o mundo é mais rico e diversificado – enfim, melhor – com as espécies. É o que se prega um dos postulados elementares da ciência da Biologia da Conservação: a diversidade dos organismos é boa. Sua preservação diversifica e dignifica a existência humana. A esta importância em si dos seres vivos, chamamos de valor intrínseco, ou inerente, algo dificilmente mensurável, que depende da sensibilidade particular de cada um para ser percebido. A nova conservação, portanto, vê a diversidade da natureza como tendo importante valor intrínseco. É preciso reconhecer que ecossistemas diversos e funcionais são críticos não somente para a manutenção das poucas espécies que exploramos ou necessitamos, mas também da perpetuação da variedade quase ilimitada de formas de vida sobre a qual pouco ou nada sabemos. (…)
    (…) A biodiversidade representa um bem com-um e é o produto de mais de três e meio bilhões de anos de evolução biológica. A extinção, por sua vez, é algo que diminui a todos. É um sinal de que passamos por cima do direito a vida de outras formas de vida e nos julgamos capazes de selecionar quais espécies devem e quais não devem continuar existindo em nosso planeta. Não devemos extinguir espécies. Se não por outros motivos, simplesmente porque as gerações futuras poderão querer dar um valor maior à biodiversidade.”

    in Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Rio Grande do Sul, 2003, p. 16-17.

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